quinta-feira, 26 de junho de 2014

Mamografia Convencional x Mamografia Digital

                                equipamento de mamografia digital
 
O câncer de mama é o tipo de câncer mais frequente entre as mulheres em todo o mundo, respondendo por quase 25% de todas as neoplasias femininas. É também a principal causa de mortalidade por câncer entre as mulheres (WHO, 2007; IARC, 2010). Estima-se que no ano de 2012 serão diagnosticados mundialmente 1,4 milhões de novos casos e que ocorrerão aproximadamente 500.000 mortes em decorrência da doença (WHO, 2012). No Brasil o cenário é semelhante, sendo esperados para 2012 mais de 52.000 novos casos e cerca de 12.000 óbitos pela doença (INCA, 2012).
 
Felizmente, as taxas de mortalidade por câncer de mama têm diminuído desde 1990. Acredita-se que essas quedas são resultado da detecção precoce e do tratamento mais adequado (WHO, 2012). A detecção precoce pode ser alcançada pelo diagnóstico em mulheres com sintomas iniciais ou por exames de rastreamento periódicos em mulheres assintomáticas, identificando anormalidades sugestivas de neoplasia.
 
O método mais eficaz para a detecção da doença em estágios iniciais, antes mesmo de se tornar palpável, é a mamografia de rastreamento. A eficácia do rastreamento mamográfico estratégico foi comprovada pela redução da mortalidade por câncer de mama em 20 a 30% em mulheres acima de 50 anos de idade em países desenvolvidos e com cobertura de rastreio superior a 70% (IARC, 2008).
 
O exame mamográfico foi criado pelo médico radiologista francês Charles Gros em meados da década de 1960. Trata-se de uma radiografia específica das mamas. A imagem é obtida através da captação dos raios-X que atravessam o tecido mamário comprimido entre duas placas a fim de diminuir a sobreposição das estruturas e aproximá-las do filme detector. A imagem produzida é definitiva, e sua qualidade depende das condições técnicas durante a execução do exame. A partir da década de 1970 o exame foi revolucionado pela associação de filmes de alta definição com um écran intensificador de imagem, permitido então um processamento mais rápido e a diminuição da dose de radiação necessária para a obtenção da imagem. Ainda assim, uma em cada dez mulheres precisa repetir o exame para obter imagens complementares ou melhoradas.
 
Em janeiro de 2000 foi aprovado nos EUA o primeiro sistema mamográfico digital. Neste, os componentes detectores de radiação transmitem impulsos elétricos a um computador que projeta a imagem diretamente para um monitor. Exceto pela diferença de captação da imagem, ambos os métodos são semelhantes.
 
O posicionamento da paciente e a compressão das mamas são idênticos. A metodologia digitalizada oferece algumas vantagens que parecem evidentes:
 
- Processamento eletrônico mais rápido
- Imagens em forma de arquivos digitais
- Menor exposição à radiação (menor radiação absoluta e menor necessidade complementação de imagens)
 
Na mamografia convencional, o filme leva cerca de três minutos para ser revelado e, no caso de a imagem não ficar nítida, é preciso repetir o exame com a paciente posicionada novamente, o que ocorre em 10% dos casos. A imagem digital é processada em apenas cinco segundos e é possível melhorá-la no próprio monitor – ampliando-a ou alterando o contraste - sem depender da presença da mulher que se submete ao exame. Além disso, é possível aplicar softwares que auxiliam na interpretação das imagens, permitindo um diagnóstico mais rápido e preciso. Por serem imagens eletrônicas, os exames digitais podem ser armazenados ou transmitidos com mais facilidade. A mamografia digital expõe a paciente a 3/4 da dose de radiação da mamografia convencional. Mas é importante salientar, que a dose necessária para a execução da mamografia convencional já é pequena e não representa efeito deletério para a paciente.
 
Logo que surgiu o método digital foram iniciados estudos clínicos com a finalidade de comparar não só a comodidade tecnológica, mas também a acurácia diagnóstica de ambos os métodos. Os estudos publicados não mostraram diferença significativa na taxa de detecção de câncer de mama entre a mamografia digital e a mamografia convencional. Porém, eram estudos de poder estatístico limitado.
 
Em setembro de 2005 foram publicados os resultados preliminares de um grande ensaio clínico, iniciado em 2001, desenhado especificamente para medir possíveis diferenças discretas da acurácia diagnóstica da mamografia digital e convencional - o DMIST (Digital Mammographic Imaging Screening Trial). O estudo, conduzido pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, com um investimento de aproximadamente US$26 milhões, comparou sistematicamente ambos os métodos aplicados em 49.500 mulheres assintomáticas nos EUA e Canadá.
 
O estudo DMIST indicou que o rastreamento mamográfico digital detecta ao menos o mesmo número de cânceres que a mamografia convencional na mesma população. Ambos os métodos apresentaram sensibilidade de 70% no geral de mulheres estudadas. Não foi evidenciado qualquer benefício da mamografia digital na diminuição da taxa de resultados falso-positivos, como havia sido sugerido por estudos anteriores.
 
Entretanto, o estudo evidenciou um desempenho significativamente melhor da mamografia digital no rastreamento em três subgrupos distintos:
- Mulheres abaixo de 50 anos
- Mulheres de qualquer idade na pré-menopausa ou perimenopausa
- Mulheres de qualquer idade com mamas densas ou heterogeneamente densas
 
Nestes três subgrupos, a mamografia convencional alcança uma sensibilidade de apenas 55%, enquanto a sensibilidade da mamografia digital permanece em 70%. Foi também detectada uma tendência, sem significância estatística, do melhor desempenho da mamografia convencional em mulheres acima de 65 anos e mamas liposubstituídas. Não foi detectado benefício aparente do emprego da mamografia digital em mulheres acima de 50 anos, que não possuem mamas densas ou heterogeneamente densas ou em mulheres na pós-menopausa. Ainda não é possível afirmar se a diferença da sensibilidade da mamografia digital nos três subgrupos destacados implicará em uma redução ainda maior da mortalidade por câncer de mama através do rastreamento periódico, mas é provável que número de vidas salvas seja maior.
 
Atualmente, um dos principais obstáculos para a adoção do método digital é o seu custo elevado. Equipamentos digitais custam aproximadamente quatro vezes mais que mamógrafos convencionais e o preço de cada exame é 1,5 a 4 vezes superior.
 
A mamografia de rastreamento periódico certamente é uma das ferramentas principais na detecção precoce do câncer de mama, mas é preciso conhecer as limitações do método. Nem sempre a imagem é nítida o suficiente para mostrar as lesões. Estudos sugerem que 10% a 20% dos cânceres de mama detectados pelo auto-exame ou exame físico não são visíveis mamograficamente. No estudo DMIST nenhum dos dois métodos foi capaz de identificar todos os cânceres de mama na população estudada. É importante salientar que mulheres que apresentarem nódulos, alterações mamárias ou outros sintomas, mesmo após um rastreamento mamográfico normal, devem consultar um médico especialista.

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